Andréa Diniz do Nascimento é revendedora da Avon desde o ano 2000, em Uberlândia (MG). Como o batalhão de 1,2 milhão de vendedoras que a empresa de cosméticos tem no Brasil, Andréa acostumou-se a bater, de porta em porta, na casa de suas clientes.
Desde outubro, no entanto, ela mudou parte de sua rotina. Para algumas clientes, envia um e-mail com o catálogo virtual da Avon, uma novidade na empresa. "Fico de 15 a 20 dias sem ver certas pessoas. Quando chega a nova edição do catálogo digital, eu o envio para uma lista de 50 e-mails", conta.
As clientes escolhem o produto e fazem os pedidos por telefone ou por correio eletrônico para Andréa. As vendas pelo catálogo virtual já respondem por 20% a 30% da receita da revendedora. A chegada do "Avon chama" ao mundo on-line mostra o universo de possibilidades descobertas por companhias como a Digital Pages.
A empresa foi criada em 2004 para oferecer versões digitais de publicações impressas. Sob o modelo, ambas têm o mesmo formato. Ou seja, o usuário vê na tela do computador exatamente a mesma coisa que no papel. Na hora de virar a página, o software simula até uma pequena mão para fazer o trabalho. Hoje, além de títulos de revistas de editoras como Abril e Globo e jornais como "O Estado de S. Paulo" e "Diário do Comércio", a companhia emprega sua tecnologia para criar versões digitais de folhetos promocionais do grupo Pão de Açúcar e publicações internas da Philips.
Youssef Mourad, diretor geral da Digital Pages, diz que existe um grande mercado potencial no Brasil, já que esse tipo de serviço ainda é recente. A possibilidade de agregar à publicação digital ferramentas que só são possíveis no mundo virtual é outra vantagem, afirma o executivo.
No catálogo da Avon, um anúncio ganha movimento ao ser clicado pelo usuário, que pode assistir a um vídeo. A Digital Pages não é a única empresa do setor de olho no mercado brasileiro. A americana Zinio, que começou a explorar o negócio de publicações digitais em 2001, tem aumentado sua presença nos países da região. Com 4 milhões de usuários ativos (consumidores que compraram uma assinatura ou uma cópia avulsa nos últimos 24 meses), a Zinio já tinha assinantes brasileiros mesmo antes de fevereiro, quando lançou a versão nacional de seu site.
Em busca de assinaturas de publicações internacionais, os brasileiros compravam em sites de outros países, explica Joan Sola, executivo-chefe da Zinio para a América Latina e a Europa. Uma das principais vantagens do serviço é o preço. Sem o custo do papel e do transporte, o pacote de 51 edições da revista "BusinessWeek", por exemplo, sai por US$ 29,97, um desconto de 89% em relação ao valor de capa da edição tradicional. "E o cliente ainda recebe a revista antes de ela chegar às bancas", diz o executivo.
Ao todo, 65% dos usuários da Zinio moram fora dos EUA. A estratégia de crescimento internacional ganhou força em fevereiro, quando a Zinio fechou uma parceria com o Acceso Group, agência de comunicação espanhola que faz parte do grupo francês Havas. O acordo deu à empresa acesso a vários países.
No Brasil, o Havas é dono da agência de publicidade Euro RSCG. Hoje, mais de 850 títulos de revistas são vendidos em cerca de 200 países pela plataforma da Zinio. A idéia é expandir esse número para mais de 2 mil periódicos em um ano com a colaboração da rede do Havas, segundo a empresa. "Brasil, México e Argentina são os países mais importantes para a empresa na América Latina", diz Sola. "Com o Havas, planejamos ter entre 60 e 80 publicações locais em cada um desses países até o fim deste ano."
Por enquanto, a companhia tem acordos com as editoras Globo e Abril no país. Como a Digital Pages, a Zinio também começa a empregar sua tecnologia em segmentos que vão além das publicações encontradas em banca. Em abril, a empresa começou a testar seu serviço no iPhone, o celular da Apple. "O potencial do celular é incrível", diz Sola. Naquele mês, foram oferecidas gratuitamente edições antigas de 20 publicações para usuários do iPhone. Em maio, a Zinio deu continuidade à estratégia e passou a oferecer números inéditos. "O número de acessos cresceu 18 vezes em maio em comparação com abril", conta Sola.
A idéia, segundo o executivo, é ter esse serviço em todos os mercados em que o iPhone é vendido. Na Digital Pages, também há novidades em curso. Junto com a Avon, a empresa desenvolveu uma nova versão do catálogo virtual. Atualmente, o usuário vê o catálogo, mas todo o processo é feito fora da web. É preciso ligar para a revendedora para dar continuidade à compra.
Na edição de agosto, depois de escolher os produtos on-line, os usuários poderão criar uma "sacola" com os itens desejados e fazer o pedido eletronicamente. A encomenda é enviada a uma revendedora escolhida pelo cliente. As duas pontas - consumidora e revendedora - combinam por telefone ou e-mail o local para a entrega da mercadoria e a forma de pagamento.
Segundo Eduardo Fernandes, diretor de contact center da Avon - a área que faz o atendimento tanto da revendedora quanto do consumidor -, a edição virtual do catálogo já chegou a ter picos de 5 mil visitantes únicos por dia. Para aumentar sua abrangência e alcançar publicações empresariais de menor porte, a Digital Pages pretende lançar, até o fim do ano, um produto menos sofisticado e mais barato. "Estamos com as grandes empresas e percebemos que há uma demanda reprimida de pequenas e médias companhias.
Um restaurante, por exemplo, poderia colocar seu cardápio na nossa plataforma", diz Mourad. O executivo estuda, também, expandir a Digital Pages para outros países da América Latina, a partir de 2009. "Já fomos sondados por editoras na Argentina e em Portugal", diz.